A internet surgiu comercialmente nos primeiros anos da década de 1990. Isso quer dizer que ela se tornou aberta ao público, não apenas algo disponível especialmente a universidades e instituições públicas norte-americanas. Embora sua primeira formulação tecnológica pareça hoje arcaica (basta pensar na conexão discada em uma linha de telefone fixo), ela foi recebida com grande otimismo.
A internet tinha algumas características que pareciam promover alguns dos mais importantes valores humanos. Idealmente, ela era cosmopolita, livre, universal, descentralizada, fácil, (em boa parte) gratuita, diluída (em referência ao poder), infinita (com relação ao conteúdo que a ela poderia chegar) e, principalmente, a internet parecia atribuir capacidades e agência aos indivíduos.
Apesar da primeira conformação da internet não dar ao usuário uma capacidade de trânsito de dados a permitir a transmissão de vídeos e áudios, e de seu primeiro uso mais comum ser a passiva leitura de sítios estáticos (no sentido de eventualmente atualizados apenas pelo titular do domínio), a internet foi percebida como uma grande revolução com a indústria que ela pareceu mais naturalmente suceder, qual seja, a comunicação social.
Obviamente, televisão, rádio e cinema não poderiam inicialmente ser ameaçados por uma tecnologia com uma capacidade de trânsito de dados ainda muito limitada e sem a presença de grupos de mídia associados à produção do conteúdo em imagens e sons. Contudo, e especialmente com relação à imprensa escrita, a internet pareceu superar os maiores gargalos da comunicação social.
Como ferramenta de comunicação (e a internet nunca foi apenas uma ferramenta de comunicação), a internet indicava que o controle da notícia e da informação por um grupo pequeno de grupos empresariais da indústria cultural estava destinado a ser superado. A audiência deixaria de ser simplesmente passiva. O usuário poderia “falar” – não estava obrigado apenas a “escutar”.
Hoje parece um relativo excesso esse ativismo do usuário. As primeiras ferramentas disponíveis para a publicação de conteúdo eram ainda pouco amplas e não destinadas, normalmente, a uma publicação para um público desconhecido. Não era fácil para qualquer um manter um sítio eletrônico. Correios eletrônicos mais prestavam a trocar mensagens entre conhecidos. Não havia se chegado à era dos vínculos fracos ou ocasionais (conversas entre pessoas que não se conhecem e não permanecem em contato).
Salvo alguns serviços (bancos e tribunais, por exemplo), e algumas ferramentas de mensagens (notadamente o correio eletrônico), a internet viveu uma era dominada por entusiastas. Piratas digitais, ativistas do software livre e participantes de projetos colaborativos pareciam ser não a margem, mas o centro dos primeiros anos da vida digital.
Foi essa a época mística da internet, seu tempo de otimismo e ativismo, em que governos e grandes empresas pareciam destinados a aceitar uma internet livre.
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