Uma das mais fortes analogias que a liberdade de expressão usa é a do livre mercado de ideias, formulada por um juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. O mundo das ideias e o mundo do comércio se aproximam por diversas razões. São mundos da novidade, da competição, do poder e, especialmente (e esse era o ponto mais importante para Oliver Wendell Holmes Jr., o juiz que a lançou), de sistemas que funcionam idealmente melhor espontaneamente (sendo que espontâneo, como na mão invisível de Adam Smith, normalmente quer dizer sem a intervenção dos governos).
Para além da analogia, o mundo das ideias e o do comércio têm ligação prática ao se compreender que boa parte do conteúdo deriva de agentes economicamente interessados em ser remunerados pelas ideias, histórias, análises, notícias ou qualquer outro conteúdo que lancem ao mundo. Nesse plano, a maior parte das pessoas pôde ser compreendida, na maior parte do tempo, como basicamente consumidora de conteúdo (de uma chamada indústria cultural ou do entretenimento, por exemplo, além dos serviços de educação, da imprensa etc.).
As redes sociais, especialmente, e a internet, em geral, trouxeram para o mundo das ideias uma nova lógica que esteve sempre presente no mundo do comércio: uma dinâmica de quantificação ou contabilização. Entretanto, essa medida confunde um pouco os papéis dos agentes no chamado mercado das ideias. Essa confusão deriva, em boa parte, do efeito que a quantificação tem de dar à medida o papel de infraestrutura.
Dessa maneira, faz parte das plataformas uma lógica de propagação. A mensagem caminha tendo, direta ou indiretamente, os demais usuários como passagem.
O usuário a funcionar como infraestrutura fez parte, de modo mais puro, da primeira década (aproximadamente) das redes sociais como aplicação dominante na internet. Era através do curtir, compartilhar, (o falecido) retuitar, copiar e colar, encaminhar etc. que o conteúdo caminhava de um usuário a outros. A popularidade da mensagem era dada pelo número de interações dos demais usuários com ela e, de certa forma, pelo tanto que a mensagem se distanciava do usuário que a originalmente postou.
Assim que a internet migrou de um modelo de compartilhamento para outro, de scrolling, por “editoria” automatizada da plataforma, a relevância da ação dos usuários sequenciais perdeu relativa importância — a propagação da mensagem passou a ser tarefa principalmente do algoritmo. Ainda assim, além de não estar encerrada a ação do usuário sobre o conteúdo postado por outro usuário, naturalmente, a plataforma leva em consideração a celebridade dada pelo número de visualizações daquele conteúdo.
Possivelmente, um efeito dessa sucessão de modelos de consumo do conteúdo digital tem como efeito e suporte a migração da importância do conteúdo propriamente dito para o domínio do usuário celebridade (o influencer). As pessoas tendem a ficar mais interessadas no “quem” do que no “o que”.
Assim sendo, em lugar de o meio ser a mensagem, agora é o usuário celebridade que passa a ser.
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