Como a internet tornou tecnológico o problema da falsidade (como nos casos das fake news e do deepfake, por exemplo), vale ressaltar que aqueles que tratam desse problema, paradoxalmente, costumam não se prender ao problema da verdade. Isso é possível por ser a falsidade indicada a partir de uma verdade pressuposta. Seja assim ou não, de toda forma, a verdade tem uma problemática bastante complexa.
A verdade não é um lado de uma dualidade. Não existem, apenas, verdadeiro e falso. A própria ambiguidade do conceito de verdade permite a ambiguidade de seu oposto. Para além da falsidade, existem o erro, o incerto, o subjetivo, o intersubjetivo, o precário e o nonsense. A distinção entre o erro e a falsidade pode ser feita pela análise do conhecimento e da intencionalidade de quem comunica: se sabe ou ignora a divergência entre o que fala e o que é real. O incerto é o que não pode ser verificado. O futuro, por exemplo, é incerto. Se alguém faz uma previsão que não se consuma, sua previsão não pode ser, a rigor, definida como falsa. O subjetivo é o insuscetível de confrontação com um paradigma objetivo de acerto (a discordância não induz falsificação, necessariamente). O intersubjetivo é o campo das crenças compartilhadas, cuja recusa pode ser desvalorada, mas não definida como falsificação. Nem tudo que não é objetivo é simplesmente subjetivo. A moda, por exemplo. Além do gosto pessoal, ela existe no campo da intersubjetividade, no conhecimento comum do que é pertinente a dado tempo. O precário é o que é baseado em uma conclusão algo precipitada. Já o nonsense é o que se comunica sem se basear em significados minimamente compartilhados, como um quadro de Pollock. O nonsense é particularmente importante para a arte. A música instrumental se aproveita dos sentidos, de códigos de produção, mas não se faz, propriamente, compreensível.
A partir de outra perspectiva, ainda que se contraste uma afirmação com uma realidade objetiva (a redundância aqui é importante), há um profundo problema de se ter certeza sobre que realidade é essa: quem ou como ela é objetivada? A verdade se confunde, em regra, com a autoridade para estabelecer a verdade.
A rigor, uma autoridade formalizada, como o juiz, sequer assume que suas decisões se fazem em razão da verdade. Ele sabe que o que há no processo é a mera “verdade” processual, medida a partir da lente do “ônus da prova”. A dinâmica processual, contudo, permite um esclarecimento sobre a verdade. A verdade é provada, é o resultado de alguma prova.
A grande forma de verdade do homem é, a partir de uma história relativamente recente, a ciência. Contudo, o modelo científico é abertamente precário: a verdade científica aguarda sua própria falsificação, conforme a lógica do próprio método (a confirmação de uma hipótese, por um processo de experimentação ou dedução, dura até algo que a falsifique). As dificuldades não param por aí: afinal, nem tudo está no campo de uma ciência formal. A ciência não se preocupa com o registro do cotidiano, nem acompanha os diversos eventos da vida social. Ela é uma verdade doutrinária apenas. Sequer para essa verdade existe uma profunda objetividade. Ela é estabelecida por uma comunidade científica sem centro, a qual se permite a convivência de discordâncias.
Além disso tudo, uma sobrevalorização da ciência impediria a opinião daquele que não é um cientista (quase todos nós). Porém, a liberdade de expressão não é uma liberdade científica apenas. Ela autoriza que se tenham opiniões contrárias à ciência (sim, é lícito, em exemplo caricato, acreditar que a Terra é plana). Esse alcance da liberdade de expressão não impede uma conflituosidade entre a comunidade especialista (uma profissão regulamentada, por exemplo) e a opinião leiga. Esse conflito, contudo, não parte do pressuposto da ilicitude do leigo.
Importante é perceber que a verdade é distinta da realidade. Reivindicações de verdade são reivindicações meramente intelectuais. “O mundo existe, mas não as descrições do mundo. Só as descrições do mundo podem ser verdadeiras ou falsas. O mundo em si – sem o auxílio das atividades descritivas dos seres humanos – não pode sê-lo” — Richard Rorty, Contingência, Ironia e Solidariedade, Martins Fontes, p. 28.
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