Sempre houve uma distinção entre o conhecimento que alguém tem, o conhecimento que uma comunidade tem e o conhecimento total que o homem produziu. Obviamente, há um crescente: o grupo tem mais conhecimento que o indivíduo, e a humanidade mais que qualquer de seus grupos. Obviamente, também, há uma simplificação: o conhecimento não é estanque (não apenas se ganha, como se perde), nem sempre é verdadeiro e nem sempre acessível. Idealmente, em questões de acesso, o homem deveria ser capaz de se aproveitar do conhecimento do grupo, e eles, o homem e o grupo, deveriam ser capazes de se aproveitar do geral do conhecimento já produzido pelo homem.
Conhecimento, porém, não é uma entidade simples. Para ser acessível, ele deve ser validado, acumulado e organizado. Nenhuma das três atividades é fácil. O conhecimento social (humano e do grupo) é um conceito apenas ideal. Ele não se localiza em um centro: é espalhado, retalhado, incoerente e precário (pode ser, por exemplo, falso). De toda forma, desde as antigas bibliotecas, sempre houve um ideal de coleção do conhecimento: ao menos de sua parte visível, manuseável — aquele conhecimento fixado em uma mídia.
A internet renovou o ideal de acumulação do conhecimento que pode ser acessível de um único ponto: no caso, o terminal. A ideia chegou a ser a missão do Google. Entretanto, ela caiu em um paradoxo do excesso e em limites proprietários (o direito criou vinculações entre conteúdo e seu titular, o conteúdo como algo de alguém) — isso sem falar em segredos e outras razões para se esconder algo que se sabe. Em boa parte, uma atividade de quem está na internet é a de acessar ou permitir o acesso a algo que se queira: encontrar alguém ou algo. Houve já maior importância para endereços URL, vieram ao centro da atividade digital as ferramentas de busca, organizaram-se acervos de conteúdos (como artigos, filmes, músicas etc.), criaram-se formas de curadoria e indicação ativa.
Além do paradoxo do excesso, a internet induziu um relativo desinteresse pelo próprio conhecimento (ao menos, em alguns de seus aspectos). A rede favorece mensagens mais simples, mais curtas e de replicação fácil. Mecanismos de aceleração de conclusões e formação de opiniões existem no mundo digital, como as bolhas digitais e os perfis de influenciadores.
Ou seja, ao mesmo tempo em que a internet permite o acesso a um maior estoque de conhecimento, ganha vida nela algo fora desse estoque. Entretanto, algo ocorre com relação ao conhecimento acumulado. Ele deu vida à máquina pensante, a inteligência artificial. Sua possibilidade de uso do acervo não está em seu interesse (ela é uma máquina sem consciência), mas em sua capacidade de processamento e treinamento. Por ela, o estoque de conhecimento entrou em uma nova era, de efetivo processamento e uso.
O movimento não é linear. Pode ser melhor definido como helicoidal ou algum outro formato que induza uma compreensão de algo cíclico. A partir do estoque de conhecimento, a inteligência artificial é capaz de gerar novos conhecimentos, pelo processamento e análise conjunta para além de qualquer capacidade humana.
A inteligência artificial não pode ser, porém, uma simples capacidade de processamento. O acervo de conhecimento não permite um processamento linear.
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