Antes de se tornar realidade, o robô foi tema de ficção científica. A máquina inteligente, com características humanas (na forma, como ter mãos, e, principalmente, além da mera forma, na capacidade de pensar). A ficção construiu nossa compreensão sobre robôs, o antropomorfismo, a existência física, a interação com o homem, o uso da linguagem e até alguma sofisticação psicológica. A tecnologia hoje coloca robôs como parte da realidade. Essa realidade é, contudo, diversa. Robôs não são parte de um mundo futuro, de colonização espacial. São construções humanas para tarefas muitas vezes comuns, em que a habilidade de realizar movimentos envolve a capacidade de compreender o contexto. Além de uma existência física, os robôs têm uma sensibilidade ambiental: eles são capazes de “ler”, de algum modo, o ambiente.
De qualquer maneira, não há uma forma ou um conteúdo a unificar tudo que pode reivindicar pertencer ao grupo em um conceito. O que pode definir um robô é seu impacto físico, distinto, seu movimento e alteração do mundo. Em um mundo que teme o risco existencial da inteligência artificial, é a movimentação física da máquina que complementa a atual condição tecnológica.
Como indicado já, o robô não tem apenas impacto físico. Ele não é uma máquina simples. Ele tem inteligência em algum nível. Para ser inteligente, ele precisa de sensibilidade: perceber e perceber, também, variações. Sua inteligência e sensibilidade se consumam como tomada de decisão: o robô toma decisões, não apenas executa tarefas. O âmbito e o contexto da tomada de decisão são ainda restritos. Não existe um robô de capacidade geral, inespecífica, não vinculado a um leque de tarefas. Essa vinculação torna até difícil a categorização de algo como robô. O que ele deveria ser? Como distinguir realidades mais complexas de máquinas análogas a preexistentes, mas que ganham alguma inteligência?
Parece haver uma gradação entre uma aplicação digital, uma aplicação digital que controla algo físico e algo físico que se controla. Por exemplo, um software usado em uma casa de investimentos que toma decisões sobre aplicações financeiras está estritamente no mundo digital. Um software usado em um avião, para controle de voo, toma decisões que controlam a aeronave, com alguma sensibilidade, mas sem fazer parecer, pelo menos no senso comum, que o avião se transforma em um robô. Já um artefato relativamente simples, capaz de cortar grama autonomamente, indica que aquela coisa está essencialmente dominada pela máquina. São distinções de senso comum, de alguma forma dominadas, ainda, pela ficção. No mundo físico, há uma impressão distinta, conforme a coisa tenha ainda dependência do homem ou se comporte de maneira linear, ou conforme algo exista em si e possa se comportar de maneira surpreendente.
Pode parecer um critério alucinado, mas essa ou alguma outra percepção ressalta algo angustiante: ela indica nossa compreensão de algum risco ou a anotação de algum medo. A corporalidade ligada à inteligência é mais ou menos problemática em razão dos riscos envolvidos a partir da máquina, seja em seu funcionamento normal, seja decorrente de algum descontrole, desalinhamento ou erro.
E se perde aqui a compreensão de algo como robô. Não se está mais simplesmente avaliando uma máquina com características antropomórficas (mãos e linguagem, por exemplo) e com alguma generalidade de trabalho (pode fazer qualquer coisa ou alguma variação de coisas). Pensa-se agora na capacidade da máquina de, por decisão sua, ainda que indiretamente, agredir o mundo humano em sua condição física. A fisicalidade é um novo critério de risco.
O exemplo mais imediato (e mais evidente) é aquele do carro sem motorista. Suas decisões no tráfego podem causar acidentes, em certo sentido, incompreensíveis, por não envolverem a decisão de um motorista humano. Carros que se dirigem no trânsito devem vir com uma expectativa de funcionamento.
Em outras postagens, houve, a partir de um argumento histórico, a anotação da diluição da distinção entre o online e o offline. Essa distinção tinha a lógica da conexão permanente, dos perfis digitais e dos terminais móveis. Ela queria dizer que o geral das atividades humanas tinha se tornado online ou tinha uma faceta digital. Com o problema da corporificação da inteligência, a barreira entre o online e o offline é derrubada em sentido diverso. A materialização ou corporificação lançam sobre o mundo físico o que podem fazer diretamente os algoritmos.
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